De 1500 para cá, ou melhor, da chegada do Cabral ao Brasil até construção de Belo Monte já se foram 511 anos. Gosto dos retratos históricos, pois eles explicam por si só o que vem ocorrendo com nosso povo. Porque quando o ilustríssimo Pedro Álvares atracou na ilha de Vera Cruz, e junto a ele sua bandeira de pseudodescobrimento, surge na dor do escravismo maquiado de escambo, a relação com os verdadeiros donos da terra. Mais que isso, surge neste momento indícios de uma tragédia anunciada. Viviam aqui Bacajás, Aimorés, Ianomâmis, Tucumãs, Pataxós, Capotos, Caiapós. Índios de verdade.
Gosto também dos retratos históricos, pois os mesmos são impossíveis de serem apagados por qualquer tipo de borracha. Por que comemorar o 19 de abril? Contraditório. Digo isso por ser complicado enaltecer a data criada pelo homem branco para um povo que foi iludido, coisificado, estuprado, usurpado e queimado por aqueles mesmos companheiros de Cabral. O dia do índio deveria ser o dia da morte de Galdino, o dia da não punição dos seus assassinos, da construção de Belo Monte, pois estes refletem o verdadeiro retrato. A nossa raiz, está sendo esmagada para a iluminação/enriquecimento de uma minoria (estatais), pois a maioria (os índios) não irá usufruir da energia produzida. Eles estão tentando nos mostrar que ao deixar 22 mil índios a beira do abismo, transformando o Rio Xingú num Lago artificial de Sangue, são capazes de apagar a nossa história. Não! Eles não são capazes!
Engraçado, o leilão das empresas para construção da Usina de Belo Monte ocorreu na semana dos povos indígenas, na semana do 19 de abril. “Vai valer a pena, afinal são 11, 233 mil MW de capacidade de produção e ainda terão alguns milhões de reais injetados para o desenvolvimento daquela região. Tudo pela ordem e pelo avanço” afirmam os tais progressistas, personificados nas crônicas de Jabor.
A usina de Belo Monte meu Povo não vai provocar apenas a devastação de florestas, rios, fauna e surgimento de mais latifúndios naquela região. Infelizmente não é só isso. O problema se torna real, material e palpável quando passa a destruir vidas. São pessoas que embora negadas ao pesar dos tempos, fazem parte da nossa construção como nação. Foram e são aquilo que ainda existem de pureza num país corrompido, cego e escravizado pelo desejo de se tornar uma potência. Potência para que? Potência para quem?
O que me deixou mais feliz foram as mobilizações, ocupações e até ameaças daquele povo sofrido, presenciado no canto: “Embarca na luta, embarca, molha o pé, mas não molha a meia, não venham lá de Brasília fazer barragem na terra alheia”. Naquele momento houve o autorreconhecimento de parte da população como povo. Eles ameaçaram pegar em armas. Ufa! Inicialmente meus caros, lutamos pelos problemas que nos afetam diretamente, logo após lutamos pelo outro e por fim a revolução popular está montada. Não tão simples como os meus dizeres, mas essa é a lógica.
O arrepio final veio quando o Cacique Caiapó recordou-se de um antecessor. “Só quando o homem branco destruir a floresta, matar todos os peixes, matar todos os animais e acabar com todos os rios, é que vão perceber que ninguém come dinheiro”. Vamos à luta. E nesses dias de índio o impossível há de se tornar cotidiano, nosso povo há de tomar o poder e os tais direitos humanos hão de existir.
Há Braços na Luta!
Há Braços na Luta!
