domingo, 12 de junho de 2011

DIAS DE ÍNDIO

De 1500 para cá, ou melhor, da chegada do Cabral ao Brasil até construção de Belo Monte já se foram 511 anos. Gosto dos retratos históricos, pois eles explicam por si só o que vem ocorrendo com nosso povo. Porque quando o ilustríssimo Pedro Álvares atracou na ilha de Vera Cruz, e junto a ele sua bandeira de pseudodescobrimento, surge na dor do escravismo maquiado de escambo, a relação com os verdadeiros donos da terra. Mais que isso, surge neste momento indícios de uma tragédia anunciada. Viviam aqui Bacajás, Aimorés, Ianomâmis, Tucumãs, Pataxós, Capotos, Caiapós. Índios de verdade. 

Gosto também dos retratos históricos, pois os mesmos são impossíveis de serem apagados por qualquer tipo de borracha. Por que comemorar o 19 de abril? Contraditório. Digo isso por ser complicado enaltecer a data criada pelo homem branco para um povo que foi iludido, coisificado, estuprado, usurpado e queimado por aqueles mesmos companheiros de Cabral. O dia do índio deveria ser o dia da morte de Galdino, o dia da não punição dos seus assassinos, da construção de Belo Monte, pois estes refletem o verdadeiro retrato. A nossa raiz, está sendo esmagada para a iluminação/enriquecimento de uma minoria (estatais), pois a maioria (os índios) não irá usufruir da energia produzida. Eles estão tentando nos mostrar que ao deixar 22 mil índios a beira do abismo, transformando o Rio Xingú num Lago artificial de Sangue, são capazes de apagar a nossa história. Não! Eles não são capazes!

Engraçado, o leilão das empresas para construção da Usina de Belo Monte ocorreu na semana dos povos indígenas, na semana do 19 de abril. “Vai valer a pena, afinal são 11, 233 mil MW de capacidade de produção e ainda terão alguns milhões de reais injetados para o desenvolvimento daquela região. Tudo pela ordem e pelo avanço” afirmam os tais progressistas, personificados nas crônicas de Jabor. 

A usina de Belo Monte meu Povo não vai provocar apenas a devastação de florestas, rios, fauna e surgimento de mais latifúndios naquela região. Infelizmente não é só isso. O problema se torna real, material e palpável quando passa a destruir vidas. São pessoas que embora negadas ao pesar dos tempos, fazem parte da nossa construção como nação. Foram e são aquilo que ainda existem de pureza num país corrompido, cego e escravizado pelo desejo de se tornar uma potência. Potência para que? Potência para quem?

O que me deixou mais feliz foram as mobilizações, ocupações e até ameaças daquele povo sofrido, presenciado no canto: “Embarca na luta, embarca, molha o pé, mas não molha a meia, não venham lá de Brasília fazer barragem na terra alheia”. Naquele momento houve o autorreconhecimento de parte da população como povo. Eles ameaçaram pegar em armas. Ufa! Inicialmente meus caros, lutamos pelos problemas que nos afetam diretamente, logo após lutamos pelo outro e por fim a revolução popular está montada. Não tão simples como os meus dizeres, mas essa é a lógica.

O arrepio final veio quando o Cacique Caiapó recordou-se de um antecessor. “Só quando o homem branco destruir a floresta, matar todos os peixes, matar todos os animais e acabar com todos os rios, é que vão perceber que ninguém come dinheiro”. Vamos à luta. E nesses dias de índio o impossível há de se tornar cotidiano, nosso povo há de tomar o poder e os tais direitos humanos hão de existir.

Há Braços na Luta!

domingo, 5 de junho de 2011

GRITA MEU POVO!

"Por menores que sejam, os jardins ficam repletos de cães ao anoitecer. E embora estivessem ali por motivos banais, eles se interessam uns pelos outro. É um tal de chihuahua que conversa com um dinamarquês, um terrier  que se junta a um pastor alemão para farejar, enfim, um espetáculo admirável. E por mais de suas inúmeras distinções em cor, tamanho, força e forma eles se reconhecem. Cheiram-se, brincam entre si, perseguem-se e às vezes atacam-se. Mas se reconhecem." Diferentemente da paz e igualdade canina está o povo brasileiro, ratificado no 03 e 04 de junho de 2011.

Ainda ontem os bombeiros bateram de frente com um sistema bem estruturado, fazendo surgir o arrepio da ditadura de 64. O autoritarismo de Médice foi maqueado, recebeu um novo nome, novos cargos, mas as armas são as mesmas. O BOPE, instituição canonizada através dos Tropas de Elite, faz o papel daquela DOPS de tempos de outrora. Reprime e oprime a classe trabalhadora e ao mesmo tempo, defende a propriedade privada. Esse é o único objetivo da “nossa” polícia.

Estavam lutando de forma pacífica por melhores condições de vida. As necessidades básicas caros leitores (moradia, saúde, educação e lazer), são fatos materiais e imediatos. Não da para tratá-los como mais um programa de governo com efeito inicial em 20 anos. Mas o capital é cruel. Vocês não podem lutar por melhorias, serão tratados como irresponsáveis, vândalos e covardes, podendo ser preso por até 30 anos. Para este sustento basta o simples “plim plim” da mídia e pronto! Toda a população explorada passa então a culpabilizar e criminalizar as vítimas. A parte mais simples é esconder as verdadeiras causas do caos, basta um pouco de sinismo e uma caricatura midiática respeitada e bum!

Me emocionei quando vi as helenas brasileiras fazendo parte do processo.  Gramsci, Marx, Tchê, Rosa Luxemburgo e Mandela, todos chorariam felizes ao ver o que todos fizeram. Pois ainda que de maneira empírica, o povo foi para as ruas, fechou o quartel, e gritou por 24 horas por igualdade. Já é hora desse povo ser ouvido! Já é hora desse povo ser o relator da sua história! O povo tem que parar de brigar por direitos. Sim, sim! Temos que avançar. A sustentação da nossa luta esta em acabar com essa miséria, com um sistema que chamam de democrático e que usa armas alienantes e ditatoriais.  Já é hora de voltar às ruas, pois somente o povo pode cortar suas algemas.

O falar do nosso povo deve ser pautado na emancipação humana. Damos autonomia e desalieamos e somente depois libertamos e igualamos. Já passou da hora dos meios de produção, construído e sustentado pelo homem se tornar propriedade do mesmo povo. Pois é meus caros ‘bombeiros”, o nosso canto não pode parar. E como pregou Valcácel, enquanto esperamos, ao entardecer, que essa coruja de Minerva levante vôo, podemos e devemos continuar contemplando os cães. Afinal, são sábios à sua maneira. Têm muito a nos ensinar.

Há Braços na Luta!