A aura que circunda o
Supremo Tribunal Federal durante o julgamento do mensalão me faz recordar do
Saudoso Paulo Freire. Ao pensar em suas obras, a que mais me instiga é “pedagogia
do oprimido”. Não apenas pela clareza, coerência e contribuição na área
pedagógica, mas sim pela conclusão arrepiante que tive ao estudá-lo por duas
vezes. Em suma, a vida do oprimido (classe trabalhadora) é tão desgraçada, que
o mesmo, ao alcançar instrumentos palpáveis, torna-se opressor, tão rude e
cruel quanto o seu antigo patrão, do qual reclamou durante anos. Ou seja, o
sonho do empregado é tornar-se um dia rico e detentor dos meios de produção, explorando
e expropriando o trabalho de outro coitado...
E de onde vem tanta
relação Ricardo?! Ora... para começar, o brasileiro, desde a chegada dos
colonizadores foi estuprado, expropriado e explorado pelos seguidores e
descendentes de Cabral. Para cá, vieram os marginalizados, excluídos, ladrões,
todos aqueles indesejados em Portugal tornaram-se nossos descobridores. Estranho
seria, se fôssemos cuidados equitativamente pelo Estado, tivéssemos escolas e
saúde de qualidade, além de distribuição de terras e renda em meio a uma
gestação corrupta, fruto do até então jovem e perspicaz pensamento capitalista.
Nos últimos vinte dias,
seja em uma conversa no boteco, trabalho, escola, academia, independente do
local, a moda é discutir o julgamento do mensalão.
Nessas conversas as conclusões são enfáticas, ora um sentimento de desilusão política
e desesperança frente ao futuro, ora discursos emocionantes pautados na ética,
moral e exemplo em que todos deveriam ser condenados, a lei da ficha limpa
seguida a risca... voltemos então a pedagogia do oprimido...
O mais importante não é
o resultado do julgamento, mas sim, para onde esta sendo direcionada a nossa
crítica e a própria formação. O mensalão foi uma volta à 1500, por conta dos
atuais réus, milhares de pessoas morreram a espera de uma consulta médica,
melhores condições de renda, alimentação, moradia e educação. É chocante ver
alguém respeitado pelos pobres como o ex-presidente Lula falar de maneira
veemente e descarada que a corrupção não aconteceu para defender seus aliados
políticos. Pior, é ter/saber o prognóstico que boa parte dos hipócritas e
demagogos de butiquim supracitados, estariam sendo réus do mesmo processo caso possuíssem
as mesmas oportunidades que Marcos Valério, Jenuíno, Dirceu. Afinal, quem nunca
furou uma fila, levou vantagem no troco de supermercado, trapaceou o colega nos
jogos de dominó? Guardada as devidas proporções, as coisas são, no mínimo,
contraditórias. Somos, no mínimo, pequenos corruptos. E como Paulo Freire era
danado de esperto, rs!
Precisamos de fato, da
pedagogia do exemplo idealizada por Freire e vivenciada por Chê, Gandhi,
Mandela, Luther King, Zumbi. A igualdade social que almejamos só será alcançada
quando emanciparmos politicamente os explorados, quando as praças voltarem a se
tornar ágoras, greves e manifestações tornarem-se cotidianas e os trabalhadores
oprimidos se identificarem com as pautas da sua classe. Para isso, faz-se
necessário uma reforma ideológica na nossa educação/formação, instrumentalizando
o nosso povo sofrido sobre a real necessidade de viver de acordo as teorias
pregadas, afinal, não se muda uma nação com cobranças e imposições, mas sim com
exemplos.
