sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Retrato da Barbárie!

56 homicídios e 10 tentativas em Salvador, arrastões com furtos, espancamentos e mais homicídios em Feira de Santana, Barreiras, Jequié. Um verdadeiro flash Back de momentos tenebrosos da nossa história.  Tudo isso em um espaço de tempo de pouquíssimas horas depois de deflagrada a greve dos policiais militares no estado da Bahia. Há tempos não estivemos tão perto de uma guerra civil. Há pesados tempos que as contradições não haviam se tornado tão evidente e uma greve causado tanta preocupação às minorias do poder.

O ministro da Defesa desembarcou em Salvador fazendo o papel que lhe cabe. Reafirmou o decreto de várias prisões aos líderes grevistas, criminalizou o movimento, utilizou a mídia para influenciar a opinião pública, reservou várias vagas nos presídios de segurança máxima para alocar os tais baderneiros e colocou 3 mil homens da força nacional (exército, marinha, aeronáutica, força de segurança nacional, tropa da Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro, com experiência no combate no Haiti e Complexo do Alemão) nas ruas da Capital. O ilustre me fez lembrar Médice quando o mesmo era contrariado. Tudo para a manutenção do Estado Democrático de Direito. A tal lei, ordem e progresso.

Afinal, daqui a exatos 13 dias é carnaval, momento de manifestar toda a alegria do nosso povo, enriquecer comerciantes e donos dos blocos. E para isso a cidade tem que estar em ordem, os nossos cartões postais (elevador Lacerda e o Farol) devem continuar a vender a imagem da nossa alegria e riqueza, os negros e pobres alocados nos morros, nossas pontes livres daqueles mendigos para não assustar os turistas. Por isso, José Eduardo Cardoso foi enfático ao classificar a greve como inaceitável, ilegítimo e criminoso. Afinal, a organização que sustenta o Estado não pode se voltar contra o mesmo. Deve seguir patrulhando, exercendo a violência para controlar a própria violência.

O povo Baiano não pode se voltar contra os grevistas. Eles brigam por direitos, por salários dignos, por melhores condições de vida, saúde e educação. São iguais aos bombeiros do Rio, aos trabalhadores da saúde, aos garis. Gente como a gente. Os mesmos assassinatos que estão sendo cronometrados a partir do inicio da greve aconteceriam mesmo sem a existência do movimento. Talvez de uma forma parcelada, mas infelizmente eram inevitáveis. Isso porque vivemos em meio a um sistema desigual, desumano, que tem a opressão e a violência como pilares de sua manutenção. O que o ilustre Ministro classifica como Estado de Ordem, vejo humildemente como um Estado de Barbárie. Um Estado em que boa parte da população passa fome, é analfabeta, mora em morros em fase de desabamento, normalmente sustentado pelo tráfico não pode ser considerado pacífico. Na verdade, “violentamente pacífico”!

Saúdo à todos os grevistas que mesmo inseridos nas contradições Estatais reivindicam por insalubridade, auxilio acidente e periculosidade, plano de carreira, enfim, lutam por condições dignas. Acredito não dar mais para continuar a viver num sistema miserável em que o povo que levanta sua bandeira é tido como marginal. Não! Não aceitamos mais viver eternamente em Estado de Sítio (alerta). Não podemos mais ter o rotineiro com normal. Essa barbárie há de acabar, não com os policiais voltando às ruas, mas de maneira radical. O ideal da igualdade entre os homens é o que me faz acordar diariamente tendo a certeza que as tensões, ocupações, greves, todo tipo de movimento que lute pela vida devem a cada dia se intensificar até tudo isso se tornar insustentável. Pois, somente assim mudaremos esse retrato tingido com o sangue da nossa gente.